ZEN, BUDISMO E CULTIVO ESPIRITUAL
Diferentes Significados de Zen
Zen
é um tema acerca do qual muitas das pessoas nele interessadas enfrentam bastante
perplexidade e confusão. Isto é de alguma forma irónico, porque Zen é, na
realidade, simples, directo e eficaz.
Podemos evitar muita confusão se estivermos cientes do facto do termo Zen ter os
seguintes quatro significados:
1.
meditação;
2.
um vislumbre da realidade cósmica;
3.
realidade cósmica;
4.
Budismo Zen.
Assim, quase todas as questões ou afirmações sobre Zen, tal como “Quem fundou o Zen?”, “Que benefícios posso derivar do Zen?”, “Praticamos Zen” e “Zen é não religioso”, tornam-se relevantes apenas se formos claros acerca do significado que utilizamos para o nosso ponto de referência.

Por
exemplo, se considerarmos Zen como significando qualquer um dos três primeiros
significados anteriores, então não existe fundador. Mas se tomarmos Zen como
significando Budismo Zen, muitos ocidentais informados indicarão Bodhidharma
como sendo o seu fundador. No entanto, os Budistas Zen considerarão Bodhidharma
o Primeiro Patriarca em vez do fundador, porque, para piorar a situação para os
menos informados, o Budismo Zen já estava presente antes de Bodhidharma, ou até
antes de Guatama Buda o redescobrir para nós na nossa era, no nosso mundo.
Zen
não é um jogo de palavras
Apesar destas subtilezas reflectirem a profundidade do Zen, não é necessário
preocupar-se com elas (pelo menos para já) e no entanto continuar a obter os
tremendos benefícios do Zen. Nesta página da Internet, iremos deixar de lado
estas subtilezas e focarmo-nos em esclarecer a confusão sobre o Budismo Zen,
tendo no entanto em conta que existe Zen não budista.
Para
ter alguma compreensão acerca do Budismo Zen, em primeiro lugar é necessário ter
algum entendimento do Budismo. Começaremos a nossa interessante jornada pela
análise desta afirmação verdadeira: O Budismo é uma religião, e o Budismo não é
uma religião. O paradoxo reside no que entendemos pelo termo “religião”. Se nos
referirmos a religião como um sistema geral de crenças, então o Budismo, bem
como o Cristianismo, Hinduísmo, Taoismo, Islão, ou até o capitalismo e o
comunismo como alguns insistem, é uma religião. Se nos referirmos à religião
como um corpo de rituais e de dogmas, então o Budismo não é uma religião.
Mesmo que tomemos o Budismo como uma religião, aqui o conceito de religião não é
o mesmo que muitos ocidentais normalmente terão em conta. Por exemplo, na
perspectiva Budista, um Cristão ou um Muçulmano devoto, um firme capitalista ou
um comunista, podem também ser devotos Budistas.
Tudo
isto soa muito a Zen. Algumas pessoas – erradamente – pensam que Zen é um jogo
de palavras. É o contrário, apesar dos mestres Zen frequentemente não clamarem
por palavras, quando as palavras são usadas, os mestres Zen empregam-nas de
forma tão exacta e precisa quanto possível. Se um estudante de Zen pergunta a um
mestre de Zen onde está Buda, quando o mestre responde “três quilos de fio”,
este pretende dizer exacta e seriamente isso. Numa outra página poderemos
divertirmo-nos com estes gong-ans (koans) ou histórias Zen aparentemente
ilógicas, mas aqui vejamos alguns exemplos que podem aclarar a perplexidade
resultante destas situações aparentemente complexas.
Quando os seus amigos lhe perguntarem se a maçã que está a comer é doce, estará
perfeitamente certo se responder “sim”, ou “não”, ou “quer sim quer não”, ou
“nem sim nem não”. O ponto crucial, claro, prende-se com aquilo que para si ou
para os seus amigos significar a palavra “doce”. De igual modo, os cientistas
falam seriamente quando afirmam que um electrão é uma partícula, não é uma
partícula, é quer uma partícula quer uma onda, é uma partícula e uma onda.
Pode
ter uma ideia melhor desta situação que, apesar de parecer complexa, é na
realidade simples, se tiver na mão uma maça que seja verde mas tenha igualmente
umas manchas amarelas e um seu amigo lhe perguntar de que cor é a maçã. Pode
dizer, correctamente, que é verde, que não é verde, que é quer verde quer
amarela, que é simultaneamente verde e amarela. De modo similar, dizer que
alguém que é Cristão também pode ser Budista, é como dizer que alguém que
pratica karate também pode praticar kungfu, ou se alguém gosta de jogar futebol
também pode gostar de tocar piano.
Ensinamentos Fundamentais do Budismo
Como
é que alguém de torna Budista? Não é à força, por medo ou favorecimento, mas por
escolha. E não é necessária qualquer cerimónia de iniciação ou ritual. Na
realidade, muitas pessoas são Budistas sem o saberem. Um Budista é um seguidor
de Buda, que significa o iluminado. Apesar de, na nossa era e no nosso mundo, o
termo “o Buda” se referir normalmente a Guatama Buda, ele não é o único Buda.
Existem literalmente inumeráveis Budas, ou iluminados, em mundos sem conta no
nosso universo.
Parece que, actualmente, apenas cientistas de ideias rígidas crêem que a nossa
Terra é o único mundo que tem vida inteligente. A maioria dos orientais e muitos
ocidentais, bem como cientistas de visão alargada acreditam que existe vida
noutros mundos. Os Budistas vão ainda um passo à frente; não apenas existe vida
em mundos sem conta, como existem também Budas sem conta – e podem não ter
necessariamente a mesma forma que nós terrestres aparentamos.
Mesmo no nosso mundo, existem muitos Budas, e na filosofia Zen todos são um
Buda, excluindo o facto de a maioria de nós não nos termos apercebido dessa
natureza de Buda em nós. Em termos ocidentais este conceito pode ser expresso
como cada um de nós sendo uma parte integrante de Deus, mas a maioria ainda não
regressou a Ele.
A
próxima pergunta lógica é: Qual é a meta do Budismo? A resposta é o
desenvolvimento espiritual. Vale a pena perceber que os Budistas nunca
reivindicam que o Budismo é o único caminho para o desenvolvimento espiritual.
De facto, um Budista dir-lhe-á que se encontrou um caminho de cultivo espiritual
satisfatório, continue nesse caminho.
Como
é que um Budista se cultiva espiritualmente? Nas palavras do próprio Buda, isso
pode ser conseguido através de:
Diferentes pessoas podem ter diferentes formas de evitar o mal e fazer o bem. O
Buda prescreve cinco preceitos fundamentais para os seus seguidores evitarem o
mal:
Para
fazer o bem, o Buda prescreve seis “paramitas” ou perfeições fundamentais:
Em
poucas palavras, fazer o bem pode ser conseguido sendo caridoso, disciplinado,
tolerante – o que refere em grande medida a fazer bem aos outros; e através da
resolução em colocar um esforço persistente na meditação para atingir a
sabedoria cósmica – o que tem muito a ver com fazer bem a nós próprios.
Existem várias formas de purificar a mente, tal como através de rituais
santificados, adoração devota, entoando cânticos de sutras (ou escrituras) e
cantando orações a Deus. Mas o método mais fundamental é a meditação. Num
sentido alargado, todos os restantes métodos são também diferentes formas de
meditação, uma vez que são meios de aprofundar a mente para diferentes níveis
de consciência.
Que resultados podemos esperar do cultivo espiritual?
Existe um número incontável de resultados, podendo ser generalizados em três
categorias, de acordo com o estágio de desenvolvimento dos aspirantes:
A realidade cósmica transcendental é designada por diferentes nomes por diferentes pessoas, tal como Deus, Alá, Brama, Tao, Tathagata. Em termos Budistas, realizar a realidade cósmica transcendental é designado iluminação ou nirvana.
Como
as necessidades e capacidades das pessoas são muito diferentes, não apenas as
abordagens e métodos para o cultivo espiritual necessitam de ser diferentes, os
efeitos e os objectivos também não são os mesmos. Para alguém que tenha pouco
conhecimento de metafísica, ou para alguém que acredite que a vida acaba quando
o cérebro morre, atingir um vida feliz e com significado neste mundo é uma
realização espiritual notável. O Budismo Theravada, incorrectamente considerado
por algumas pessoas como uma filosofia de vida em vez de uma religião, preenche
esta necessidade muito bem.
A
grande maioria das pessoas esperam ir para o céu após esta vida terrena. As
escolas de Budismo Amitaba e Meitriya adequam-se especialmente a esta
necessidade, proporcionando meios muito práticos para os seus seguidores
concretizarem os seus objectivos espirituais.
O
objectivo espiritual mais elevado é ir para além do céu. Em termos Budistas,
isto está para além da vida e da morte, para além dos três domínios de
existência. Quando Santa Teresa disse que “é de todo impossível para ela
duvidar de que ela esteve em Deus, e Deus nela”, e quando o Santo Muçulmano,
Mansur al-Hallaj, exclamou que “eu sou Ele quem eu amo e Ele quem eu amo é
eu”, estavam a dizer as mesmas coisas em diferentes palavras. Numa situação
semelhante de êxtase, um mestre Zen diria “eu vi a minha face original”
ou “eu percebo porque Bodhidharma veio para oriente”.

Realizando a
Realidade Cósmica Transcendental
A
estrada para a realização da realidade cósmica transcendental é longa e árdua
para a maioria das pessoas, levando normalmente numerosas vidas. Mas para
aqueles que estão prontos, o Budismo Zen pretende atingir o objectivo espiritual
mais elevado aqui e agora. Se tiver lido até aqui, poderá já ter observado que
Zen não é apenas reparar motorizadas, ou aprender para ser um arqueiro, nem
apenas dar respostas crípticas, ou rachar estátuas de Buda para a fogueira.
Como
é que os Budistas Zen realizam a realidade cósmica transcendental, e qual é a
explicação filosófica por detrás da sua visão e acção? Muito resumidamente, a
explicação é a seguinte. A realidade última é indiferenciada. Em termos Zen é
expressada como “nós somos originalmente Budas”. Um Cristão ou um
Muçulmano expressaria o mesmo conceito como “Deus é omnipresente”.
Em
termos científicos, podemos dizer que se olharmos para o mundo fenomenal através
de um microscópio super-super gigante (ainda a ser construído), não veremos
estrelas e casas, pessoas e insectos; apenas veríamos partículas subatómicas. Se
pudéssemos ver através de um microscópio ainda mais poderoso, as partículas não
são partículas; são apenas concentrações de energia sem fronteiras bem
definidas.
Então porque vemos estrelas e casas, pessoas e insectos em vez de energia sem
limites. Por outras palavras, porque somos pessoas comuns e não Budas. Isso
acontece porque somos limitados pelos nossos sentidos. Interpretamos a massa de
uma partícula subatómica ou a energia ilimitada como casas e insectos. Uma
bactéria pode interpretar a mesma massa de energia como o seu próprio universo.
Em
termos Budistas, o mundo fenomenal que vemos é relativo e ilusório; não é a
realidade última. A ilusão –- como casas e insectos –- é uma criação da nossa
mente. A ilusão é relativa às nossas condições. Outro ser, como uma bactéria ou
um deus interpretará a ilusão de acordo com o seu próprio conjunto de condições.
Por
isso, como são os nossos sentidos, colectivamente referidos como mente, que
fazem com que percebamos a realidade última como o mundo fenomenal, podemos
perceber a realidade última novamente se pudermos ir para além dos nossos
sentidos. Em termos Zen, isto é apontar directamente à mente. Quando
conseguirmos com sucesso apontar directamente à mente, perceberemos que o nosso
próprio corpo é uma ilusão, e que somos realmente a energia transcendental
ilimitada.
Em
termos Cristão ou Muçulmanos, a alma é libertada e ultimamente unida a Deus. Um
yogui dirá que o seu atman está agora em união com Brama, enquanto que um
Taoista chamará a esta realização o Tao. Os Budistas descrevem esta realização
espiritual mais elevada como nirvana ou a iluminação.
Como
é que os Budistas Zen apontam directamente à mente? Existem numerosos métodos,
que estão actualmente simplificados em dois sistemas principais conhecidos como
Cao Dong ou Soto Zen, e Lin Ji ou Rinzai Zen. O Soto Zen enfatiza a meditação
para apontar à mente, enquanto o Rinzai Zen faz uma utilização extensiva de
gong-ans (koans) que são histórias aparentemente ilógicas. É muito importante
notar que esta distinção, bem como no restante Budismo, é arbitrária: o Soto Zen
também utiliza gong-ans, e a meditação é de fundamental impotância em todas as
escolas do Budismo, incluindo o Rinzai Zen.
Se
quiser praticar meditação ou gong-ans, terá de procurar um mestre. Não importa
quão profunda ou apelativa a sua ambição possa ser, não conseguirá obter bons
resultados praticando com base em livros ou vídeos. E se pensa que pode atingir
a iluminação durante umas férias de verão numa terra exótica, é evidente que
ainda é pouco claro para si o que é o cultivo espiritual. Lembre-se que as
pessoas que dedicaram as suas vidas ao cultivo espiritual passaram anos a
meditar e a resolver gong-ans em templos especialmente construídos para esse
efeito.
O
Zen na Vida do Dia a Dia
Assim, o Zen é um assunto sério, apesar de existir também muito humor e
divertimento nele. Zen é procurar para realização espiritual, apesar de também o
podermos usar de modo muito útil para as necessidades mundanas. Noutras
palavras, mesmo que não esteja pronto(a) para um cultivo espiritual sério e
dedicado num templo ou em lugares apropriados, pode mesmo assim obter grandes
benefícios do Zen na sua vida do dia a dia.
Entre os muitos benefícios mundanos, o Zen torna-nos mais vivos em cada momento.
Se estiver plenamente consciente do que está a fazer enquanto executa uma
sequência de kungfu ou um exercício de qigong (chi kung), se consegue apreciar
plenamente a beleza da natureza ou das suas tarefas diárias quando segura uma
flor ou limpa o chão, está a praticar Zen. Por isso, quando um estudante se
queixou ao professor que não tinha recebido qualquer ensinamento Zen desde que
tinha entrado no templo à muitos meses, o mestre disse, “Vai e come a tua
comida.” “Já fiz isso, senhor.” “Vai e lava os pratos!” ordenou o mestre.
Outro benefício importante do Zen é fazer em vez de meramente falar ou até
aprender. No exemplo anterior, em vez de dar uma aula de Zen, ou solicitar ao
estudante para ler alguns livros sobre Zen, o mestre pediu ao estudante para
comer a sua comida e lavar os pratos. As quais são maneiras práticas de praticar
Zen. Quando Hui Ke pediu a Bodhidharma para acalmar a sua mente, o mestre não
filosofou acerca do que é a mente; disse ao seu pupilo de forma simples, directa
e eficaz para trazer a sua mente que ele a acalmaria.
Nesse instante Hui Ke, que estava pronto após anos de cultivo prático, foi
iluminado. Por isso, se pretende aperfeiçoar-se em kungfu ou qigong, deve
praticar, em vez de apenas falar acerca do que o kungfu ou o qigong é. De igual
modo, se pretende concretizar um projecto, execute-o –- de forma simples,
directa e eficaz, em vez de formar grupos para discutir o assunto vezes sem fim,
mas sem resultados práticos.
Num
modo típico em Zen, se um aluno coloca ao seu professor uma questão, em vez de
intelectualizar acerca da resposta, o mestre pode fazer aquilo que pessoas menos
informadas considerarão uma resposta sem sentido, como bater no aluno,
gritar-lhe ou pedir-lhe para lavar a cara. O mestre está na realidade a ensinar
Zen da forma mais prática, exemplificando o princípio Zen de fazer, e não apenas
falar.